MPA: UMA SEMENTE PLANTADA HÁ 20 ANOS

Em 2016, o Movimento de Pequenos Agricultores completa 20 anos. No seu 1º Congresso Nacional, em 2015, o movimento reafirmou seu compromisso com a luta em defesa da Soberania Alimentar, contra os agrotóxicos e com a construção do Plano Camponês.

O sul do Brasil viveu, no final de 1995, uma forte seca. Antônio Britto (PMDB) estava no seu primeiro ano de mandato no Rio Grande do Sul e o seu governo não apresentava soluções para esta crise no campo. Para enfrentar a seca e o governador, sindicatos da região lançam a chamada para um “acampamento da seca”. O que aconteceu ninguém poderia esperar. Em Sarandi (RS), município onde acontecia o acampamento, em poucos dias eram cerca de 15.000 agricultores reivindicando um crédito de manutenção familiar para sobreviver à seca, muito além dos 3.000 que os sindicatos esperavam reunir. Esta organização, que num primeiro momento levou estes agricultores até ao Palácio Piratini, em Porto Alegre (RS), para reivindicar um crédito de R$1.500 culminou, em 1997, numa primeira assembleia de pequenos agricultores que pretendiam criar um movimento nacional para continuar organizando a luta por direitos no campo.

Em tempos de seca, uma semente foi plantada e começou a germinar. Vinte anos depois, em 2015, já consolidado em 17 estados do Brasil, o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) realiza o seu 1º Congresso Nacional, em São Bernardo do Campo (SP). Com um inimigo claro chamado agronegócio e governos (estaduais e federais) reféns das multinacionais e da agroindústria, os pequenos agricultores, numa forte aliança camponesa e operária, continuam lutando. Esta aliança é, para o MPA e outros movimentos da Via Campesina, a forma encontrada para libertar a classe operária e camponesa e resistir à opressão dos transgénicos, dos agrotóxicos, da violência contra a mulher e tantas outras opressões.

Célio e Eduarda, ambos técnicos do MPA em Santa Cruz do Sul (RS), apresentaram o movimento aos estagiários do VII EIV RS, na passada sexta-feira (12). Hoje, segundo eles, o Plano Camponês representa tudo o que o MPA é, tudo o movimento deseja ser e tudo o que almeja para a comunidade camponesa e para a sociedade em geral. O Plano, que é uma proposta do MPA construída internamente através de debates e estudos sobre a realidade camponesa no Brasil, provoca reflexões acerca da produção, educação e formação, qualidade de vida e soberania alimentar.

Para saber mais sobre o Plano Camponês.

A realidade de Santa Cruz do Sul e dos municípios produtores de fumo

Santa Cruz do Sul (RS) é um dos municípios brasileiros que mais produz fumo. Também conhecida como “Sousa Cruz do Sul” por aqui estar sediada a Sousa Cruz que, junto com a Philip Morris e a Japan Tobaco International (JTI), é uma das maiores produtoras de fumo do mundo.

A Sousa Cruz tomou conta do município, iludiu pequenos agricultores e convenceu-os de que plantar fumo era tudo o que precisavam para garantir a sua renda e que essa renda seria alta o suficiente para subirem o seu nível de vida. Segundo Célio, hoje há casas sem jardins onde “até os canteiros da frente tem fumo plantado”.

A realidade, porém, é bem diferente do que a Sousa Cruz, que está entre as maiores corporações mundiais, prometeu. Associada à produção de fumo estão doenças como câncer e depressão. O maior exemplo é Venâncio Aires (RS), um município que foi considerado o maior produtor de fumo do Brasil de 2015 e que tem, ao mesmo tempo, o maior índice de suicídios do país. As mulheres entre 30 e 55 anos são as que mais cometem suicídio.

Os casos de violência contra a mulher tomam outras proporções em Santa Cruz. Pela quantidade de corporações instaladas no município, é frequente a visita de grupos de estrangeiros. Há diversos relatos de violência sexual e feminicídio associada a estes “visitantes”, mas os casos são abafados e nunca investigados. Vale ressaltar que o principal jornal da região, Gazeta do Sul, é financiado pela própria Sousa Cruz.

Um Centro de Produção e Formação em Santa Cruz do Sul

É neste contexto que surge o Centro de Produção e Formação do MPA, em Santa Cruz do Sul. Depois de 150 anos, plantar fumo deixou de ser rentável. O grande desafio do MPA na região é dialogar com as famílias no sentido de diversificarem a produção e produzirem de forma sustentável, agroecológica, sem agrotóxicos e insumos químicos, com autonomia e equilíbrio – conhecendo os ciclos – e, acima de tudo, levando a ideia de que podem produzir muito mais do que tabaco.

Atualmente, através de Chamadas Públicas (ATER) pela diversificação do tabaco, há 32 técnicos do MPA dialogando com 2640 famílias, em 24 municípios. Os técnicos fazem visitas aos pequenos agricultores e realizam atividades coletivas, como seminários e formações. Este é um exemplo concreto da importância do investimento de fundos públicos nos movimentos sociais do campo, que tem mostrado como a luta e a resistência podem transformar a realidade rural.

As etapas de formação e preparação para as vivências do VII EIV RS, à semelhança de outros anos, acontecem no Centro de Produção e Formação do MPA, em Santa Cruz do Sul.

Para saber mais sobre o Centro de Produção e Formação São Francisco de Assis visite: Um Centro de Biodiversidade, Aprendizado e Produção

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